domingo, 17 de novembro de 2013

Não desista do que é seu! (Parte I)



Texto: 2 Reis 4.8ü

 A história desta mulher de Suném, ou mulher Sunamita, tem princípios importantes para a vida hoje.  E eu quero extrair algumas coisas muito interessantes para o nosso dia-a-dia, fechando assim o mês da Celebração da Família.  Esses ensinamentos enfocarão aspectos da vida familiar, bem como procedimentos éticos da vida.  (Deixe a sua bíblia aberta para acompanhar as referências...).











PRIMEIRO ENSINAMENTO – As pessoas estão de olho em nosso procedimento.

O contexto do v. 8 nos informa que o profeta de Deus chamado ELIZEU com certeza já tinha passado várias vezes pela porta da casa daquela mulher.   Até que um dia ela ofereceu uma refeição a ele em sua casa.    Ou seja, primeiro ela viu Elizeu passar.   Primeiro ela viu o procedimento do Profeta.  Primeiro ela viu a maneira de Elizeu se comportar...  e depois disso, ela ousou convidar Elizeu para uma refeição...

E as coisas funcionam exatamente assim. À medida que travamos um relacionamento, nós temos a chance de conhecer mais as pessoas. Por isso no v. 9, essa mulher disse ao marido“Sei que esse homem que sempre vem aqui é um santo homem de Deus”.   Ou seja, para chegar a esta conclusão ela precisou travar relacionamento com o profeta...

Você já viu pessoas que foram enganadas por indivíduos de má fé, malandros... Indivíduos que elas nem conheciam direito, que nem sabiam da origem, que caíram de pára-quedas em sua frente, indivíduos que elas viram pela primeira vez, mas que já colocaram para dentro de suas casas?   Parece que é só o camarada ser um pouco esperto para falar, ter certo domínio e pronto, leva a pessoa no bico... Falou bonito, tem jogo de cintura, então é um homem de Deus!

Nós precisamos aprender com essa mulher!  Há um ditado que diz, que se você quer conhecer alguém, você tem que comer um saco de sal de com ele. Já calculou quanto tempo leva para você consumir um saco de sal?

Com certeza você é conhecedor de vários casos de igrejas grandes e igrejas pequenas, que sofreram muitíssimo, porque receberam alguém como pessoa de Deus e que mais tarde revelou ser tremendo de um pilantra, de um vigarista, de alguém que chegou só pra explorar o povo de Deus, ou só pra ficar com as minas da igreja.

Portanto, cuidado com quem você bota dentro da sua casa. Cuidado com quem você trava relacionamento. Sem esse cuidado, você pode levar gato por lebre. Então, conheça primeiro a pessoa, antes de você afirmar qualquer coisa sobre ela... Primeiro Ensinamento: As pessoas estão de olho em nosso procedimento...


SEGUNDO ENSINAMENTOCasamento não é só unidade, tem que ser UNICIDADE.

Veja o que diz o v. 10: “Vamos construir lá em cima um quarto de tijolos e colocar nele uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lamparina para ele...”   -  Você percebe o emprego do plural nas palavras dessa mulher?  “Vamos construir, vamos fazer, vamos colocar uma cadeira, vamos fazer uma mesa...”  -  Ela diz isso para o marido, porque casamento é unicidade. Casamento não é sóunidade, ou seja, duas partes que se juntam, mas é unicidade: duas partes que se fundem para ser uma. “Deixará o homem seu pai e sua mão e unirá à sua mulher, e ambos se tornarão uma só carne”...

E essa mulher aqui, ela não faz nada sozinha. E olha que, pelo texto, ela é uma mulher de posição, de liderança, daquelas que idealizam, que criam e que diz “vamos fazer”!  Mas mesmo ela sendo uma mulher de liderança e de posição, ela não vai em cima do marido. Porque muitas vezes, a mulher que tem posição de liderança, costuma quase que colocar um cabresto no marido e fica o tempo todo dizendo pra ele: “vem pra cá... agora, vai pra lá” e o marido fica que nem um pateta dentro de casa.
Portanto, casais casados, todas as decisões que envolvam a casa, tem que ser compartilhadas entre o marido e a esposa. Ela não deve tomar decisões sem a sua participação e você não pode decidir sem a participação dela.     -     Você se casou? Então, você nunca mais vai poder tomar decisão sozinha.    (Você está com seu marido aí perto? Sua esposa esta aí? ... diz aí, um para o outro: “Eu nunca mais - posso tomar decisão sozinho”).


TERCEIRO ENSINAMENTOSe quiser abençoar alguém, faça algo de proveito.

Pois bem, o v. 10 nos informa então que o CASAL decidiu fazer o bem para o Profeta e fizeram um quartinho onde ele pudesse descansar sempre que os visitassem.  Que ato nobre!  Como aquele quarto seria útil para o profeta...

Agora, tem gente que pensa que para o próximo, qualquer coisa serve.   E olha que na igreja, isso costuma ser bastante comum.   Se, por exemplo, tem uma campanha para donativos aos carentes, parece que a igreja se transforma numa companhia de limpeza. A pessoa trás camisa rasgada, sapato com ar condicionado (aqueles que vêm com um buraco bem embaixo, na sola); o cara trás ventilador sem hélice, ferro elétrico sem resistência, feijão estragado pra cesta básica...

Se você quer abençoar uma pessoa, se você quer ajudar uma pessoa, faça algo que seja útil e que seja de proveito.  Lixo, você joga fora!    -   Jesus disse a respeito de dois grandes mandamentos: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo como a si mesmo. Então, se uma coisa não serve mais para mim, não serve para o meu próximo!


QUARTO ENSINAMENTOSe você quer tratar bem o outro, faça com desvelo.

 Veja que coisa linda o vv. 12-13 – “Ele mandou o seu servo Geazi chamar a sunamita. Ele a chamou e, quando ela veio, Eliseu mandou Geazi dizer-lhe: Você teve todo este trabalho por nossa causa. O que podemos fazer por você?...”   -   A Versão de Almeida diz assim:  “Tu tens nos tratado com abnegação e desvelo...”

Sabe o que significa  “DESVELO”?  Significa grande ajuda“você tem nos tratado com amizade, com dedicação, com cordialidade”.    Você quer tratar bem uma pessoa, trate assim!   Você quer ajudar alguém, quer cuidar de alguém? Você tem que ter esse princípio!!!     -    Você quer ajudar alguém da igreja? Esse é o principio...     -   O profeta, percebeu, que aquela mulher o tratava com carinho, com dedicação, com desvelo...

E há mais uma coisa importante aqui.  A pergunta do Profeta foi“O que podemos fazer por você...?”   -   Parou para pensar nisso?  Diz o texto que aquela mulher era rica e com certeza ela tinha tudo que precisava...    E aqui nós aprendemos a lição do reconhecimento, da gratidão, da reciprocidade.   E isso é importante porque tem muita gente que é ingrata, cospe no prato que comeu, não reconhecem nada do que se faz por elas.   (Você pode ter ajudado a pessoa milhares de vezes, mas na hora que você não ajudar, ela vira a cara para você).

Portanto, quando alguém faz o bem para você, coloque isso no seu coração: reconheça o bem que a pessoa te faz, por menor que seja, tenha gratidão;  reconheça o bem que te fez e seja recíproco.
Este é o Quarto Ensinamento: Se você quiser tratar bem o outro, faça com desvelo...



QUINTO ENSINAMENTO: Quando um homem de Deus falar, acredite!

  v. 14 – “Mais tarde Eliseu perguntou a Geazi: “O que se pode fazer por ela?”.  Ou seja, Eliseu insiste, troca idéias com Geazi:  “Geazi, vê se essa mulher precisa de alguma coisa. Eu quero ser grato, eu quero dar a minha reciprocidade... investiga a vida dela e vê se há alguma coisa que eu possa fazer por ela”.    E no mesmo versículo Geazi respondeu para Eliseu: “Bem, ela não tem filhos...”

E os vv. 15-16 nos informam que Eliseu mandou chamá-la e profetizou para ela: “Por volta desta época, no ano que vem,  você estará com um filho nos braços”.
“Quando um homem de Deus falar, acredite”.   – E isso aqui é uma crise tremenda! Olha, .... o que tem de gente por aí falando em nome de Deus ... é uma desumanidade!   É o tal de“Deus mandou te dizer..  Deus me revelou....”.  Irmãos, eu creio em revelação!  Eu creio que Deus pode usar uma pessoa e mandar que ela diga algo para outra, sim, por meios concretos. Mas eu não creio em “revelamento”, em gente falando em nome de Deus quando não está autorizado a fazê-lo.

Mas eu quero dizer uma coisa para você: quando um homem de Deus falar alguma coisa pra você, pode acreditar, porque Deus respalda a palavra de um homem que é fiel à Ele. Quando um homem de Deus te falar, acredite!

Agora, porque tem tantos picaretas por aí, disfarçados de homem de Deus, o povo passa a ficar incrédulo, passa a duvidar. Mas mesmo diante de tantos picaretas, inclusive com nome de pastor (não é porque tem o titulo de pastor que não é picareta. Picareta tem em todo lugar: tem médico picareta, advogado picareta, político picareta, empresário picareta... tudo que é lugar tem picareta)... mas graças a Deus, ainda temos homens de Deus nesta nação, gente compromissada com Deus e que Deus respalda sempre com sua palavra.

Foi exatamente isso que aconteceu com o Profeta Eliseu: - v. 17: “Mas, como Eliseu lhe dissera, a mulher engravidou e, no ano seguinte, por volta daquela mesma época, deu à luz um filho”.






segunda-feira, 11 de novembro de 2013

DEUS EM TRÊS PESSOAS: A TRINDADE (PARTE V)






4. Todas as analogias têm falhas

Se não podemos adotar nenhuma dessas soluções simplistas, então como juntar as três verdades bíblicas para assim sustentar a doutrina da Trindade? As pessoas já usaram várias analogias retiradas da natureza ou da experiência humana para tentar explicar essa doutrina. Embora tais analogias sejam úteis num nível elementar de compreensão, todas elas se revelam inadequadas ou ilusórias numa reflexão mais aprofundada. Dizer, por exemplo, que Deus é como um trevo de três folhas, que mesmo tendo três partes é apenas um trevo, não é satisfatório, pois cada folha apenas faz parte do trevo, e não se pode dizer que nenhuma das folhas é todo o trevo. Mas na Trindade, cada uma das pessoas não é apenas uma parte separada de Deus, mas plenamente Deus. Além disso, a folha de um trevo é impessoal e não tem, portanto, personalidade distinta e complexa como cada pessoa da Trindade.
Outros já usaram a analogia das três partes de uma árvore: raiz, tronco e ramos constituem uma só arvore. Mas surge um problema semelhante, pois se trata somente de partes de uma árvore, e não se pode dizer que nenhuma dessas partes é a árvore inteira. Além do mais, nessa analogia as partes têm propriedades distintas, diferentemente das pessoas da Trindade, que possuem todos os atributos de Deus em igual medida. E a ausência de personalidade em cada uma das partes é outra deficiência.
A analogia das três formas de água (vapor, água e gelo) é também inadequada, por que: (a) nenhuma quantidade de água jamais é ao mesmo tempo todas as três formas, (b) as três formas têm propriedades ou características diferentes, (c) a analogia nada tem que corresponda ao fato de existir somente um Deus (mas existe algo como "uma só água" ou "toda a água do universo") e (d) falta o elemento da personalidade inteligente.
Outras analogias foram derivadas da experiência humana. Poder-se-ia dizer que a Trindade é como um homem que é ao mesmo tempo fazendeiro, prefeito da sua cidade e presbítero da sua igreja. Ele desempenha papéis diferentes em momentos distintos, mas é um só homem. Porém, essa analogia é bastante falha, pois só uma pessoa executa essas três atividades em momento diferentes, e o modalismo não contempla a relação pessoal entre os membros da Trindade. (Na verdade, essa analogia simples ensina a heresia chamada modalismo, discutida abaixo.)
Outra analogia retirada da vida humana é a união entre intelecto, emoções e vontade numa pessoa. Embora seja componente de uma personalidade, nenhum desses fatores constitui a pessoa inteira. E as partes não são de características idênticas, mas têm capacidades distintas.
Então que analogia usar para explicar a Trindade? Embora a Bíblia use muitas analogias derivadas da natureza e da vida para nos ensinar aspectos diversos do caráter de Deus (Deus é como uma rocha na sua fidelidade, como um pastor no seu cuidado, etc.), são interessantes notar que nenhum trecho das Escrituras se acha alguma analogia que explique a doutrina da Trindade. O mais próximo que chegamos de uma analogia se encontra nos próprios títulos "Pai" e "Filho", títulos que nitidamente dizem respeito a pessoas distintas e à íntima relação que existe entre os dois numa família. Mas no plano humano, logicamente, temos dois seres totalmente distintos, nenhum deles formado de três pessoas distintas. É melhor concluir que nenhuma analogia explica adequadamente a Trindade, que todas são ilusórias em aspectos importantes.



5. Deus existe eterna e necessariamente como Trindade



Quando o universo foi criado, Deus Pai proferiu as potentes palavras criadoras que o gerarem; Deus Filho foi o agente divino que executou essas palavras (Jo 1.3; 1 Co 8.6; Cl 1.16; Hb 1.2) e o Espírito de Deus "pairava por sobre as águas" (Gn 1.2). Então é como seria de esperar: se os três membros da Trindade são iguais e plenamente divinos, então todos eles existiram desde a eternidade, e Deus sempre existiu eternamente como Trindade (cf. também Jo 17.5,24). Além disso, Deus não pode ser diferente do que é, pois é imutável. Portanto, parece correto concluir que Deus existe necessariamente como Trindade - não pode ser diferente do que é.


Postado pelo Pastor Augustus Nicodemus Lopes




sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Um Olhar Jurídico-Religiso sobre o Julgamento de Jesus Cristo




Quando se deita um olhar jurídico-religioso, isento de quaisquer paixões, sobre processo condenatório de Jesus Cristo, vê-se que houve notáveis equívocos, tanto na esfera jurídica, como na religiosa, cujo procedimento deixou manchas eternas sobre a atuação do Poder Judiciário e a noção de Justiça. Mas, de outro lado, ampliou a divulgação do cristianismo, e trouxe reflexões insuperáveis, para o mundo, acerca das lições oriundas do episódio.

 Sempre nos causa constrangimento ao visualizarmos, através das telas de cinemas ou TV, a via crucis de Cristo rumo ao cal­vário, principalmente, a partir da última película, intitulada “Paixão de Cristo”, de Mel Gibson. É perplexa e constrangedora a sua exposição ridicularizada, carregando, a um tempo só, o madeiro infamante, e sendo açoitado por chibatadas. Tudo isso, conclama­-nos a uma reflexão: seria necessário tudo aquilo? A decomposição humana, para que a humanidade pudesse compreender o maior gesto de desprendimento e humildade?
Na realidade, desejaríamos, sim, ver o expoente maior do Cristianismo, demonstrar toda força, coragem, sabedoria, filosofia, que sempre lhe foi peculiar em suas andanças em terras da Galiléia, Jesuralém, enfim, da grande Israel. Que utilizasse de toda argumentação, defesa, como fizera desde os 13 anos, por entre os doutores e, dali saísse, fortalecido, para defender e conduzir a humanidade sobre as premissas da lei de amor e caridade.
No entanto, naquela época, bastaram alguns Sacerdotes da cúpula do Sinédrio, em Jerusalém, sentirem ameaçados, em seus frágeis pedestais, ou discursos demagógicos, somando-se aos rumores da população, que exaltavam a figura de um rei dos Judeus, que aqueles mandaram prender Jesus, para, após, levá-lo perante à Corte superior, daquela nação, a fim de que ele se explicasse ante o inexplicável.
Cabe lembrar que, inicialmente, os aludidos Sacerdotes, intimidados pela verdade dos discursos pregados, em praça pública, por Jesus Cristo, corromperam Judas Iscariotes, a fim de delatar Jesus aos soldados romanos. E, ali, durante a noite, e sem a presença de testemunhas, fatos esses totalmente vedados pela Legislação romana, vigente à época, o Rabino foi conduzido ao Grande Sinédrio, a Suprema Corte de Israel. Merece lembrar que esta era composta por 70 membros: 23 anciães, 23 sacerdotes e 23 escribas. E, o último componente, o sumo-sacerdote, que a presidia, o tão propalado Caifás.
Lá, chegou Jesus, conduzido, não se sabe por que, para que, e em virtude de que. Todavia, não se pode ignorar que um deter­minado número de Sacerdotes do Sinédrio se sentiam incomodados com as pregações de Jesus. E, muito mais, com Aquele que a população exaltava como o Cristo, o enviado filho de Deus, que iria derrogar as supostas autoridades, naquela corte.
Jesus, não raras vezes, exaltava a preocupação com os Escribas e Fariseus, que possuíam Deus tão perto dos lábios, com discursos afinados, mas que, no mesmo passo, através de gestos, revelavam tê-lo tão distante do coração. Talvez, por isso, em al­gumas ocasiões, eram feitas associações, em relação a esses, utilizando-se a figura de sepulcros branqueados por fora, mas cheios por dentro de podridão.
É necessário compreender, de vez que, não foram os Judeus, os próprios conterrâneos que Jesus, como se quer fazer crer a toda humanidade, que o condenaram Jesus à morte. Os Judeus sentiam-se, sim, extremamente incomodados com a sua presença, mas não tinham poder político ou jurídico para tal. No entanto, esta condenação partiu, sim, de alguns sacerdotes da cúpula do Grande Sinédrio. Ou seja, a Corte Suprema de Israel, que muitos, inclusive, dizem ter sido edificada, por ironia do destino, por Moisés.
Outrossim, o que muito se discute é a forma de condução do processo, os meios probatórios e os ilícitos imputados a Jesus. E aí está o nosso tímido olhar jurídico. É claro, que nesta ótica, não se pode ignorar que os Tribunais de Roma, assim como os Tribunais de Jerusalém possuíam, naquela época, invejável estrutura penal, com inúmeras garantias ao réu, as quais possuem, ainda hoje, como herança daqueles ordenamentos. A guisa de recordação, um certo historiador da antiguidade, já nos teria dito, com muita propriedade: Roma nos deu as Leis; Grécia, as artes e Jerusalém, a religião.
Retomando os aspectos contraditórios da famigerada sentença condenatória, por exemplo, uma só testemunha não era o suficiente para condenar nenhum réu. E mesmo, duas testemunhas teriam que estar em perfeita sintonia sobre os fatos. E, isso, apenas durante o dia, e em frente do réu. Até porque, no caso de mentiras, o crime de perjúrio era considerado crime susceptível de pena capital.
Assim, os sacerdotes cuidaram em produzir duas testemunhas, que noticiassem sobre os crimes imputados a Jesus, sendo que uma afirmava que este teria dito que iria destruir o templo, e a outra que Jesus convocava os demais à destruição do templo. Enfim, vê-se, que a prova testemunhal produzida não surtiria nenhum efeito, pela falta de sintonia.
Outro ponto, que a Justiça rabínica, ou dos Judeus, não tolerava, diz respeito à confissão, como meio de prova para condena­ção, na pena capital. E isto foi ignorado. Além do mais, nenhum réu poderia ser condenado sem defensor, ou defesa. E, aí está a lógica da 5.ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos da América, observada por boa parte dos povos. Sem embargo dessa exigência, merece lembrar, que a condenação por número total dos votantes, como se deu no caso de Jesus, implicaria a absolvi­ção do indigitado réu, por indicar tendências de perseguição, no Tribunal, ou articulação para este fim. Também isso, foi ignorado.
Outra questão, diz respeito à jurisdição competente para apreciação dos crimes imputados a Jesus, ou seja, a competência ratione materiae e a competência ratione loci. E, nisto, Pilatos tratou de retirar de si, a responsabilidade, angustiante, tantas vezes advertida por sua esposa. Quando, então, remeteu Jesus ao Tribunal de Herodes Antipia, responsável pela província da Galileia, de onde se dizia ser originário, o carpinteiro, filho de Maria e José. Aliás, na realidade, Jesus nasceu em Belém, da Judéia, e, somente em sua infância e adolescência, é que passou a viver em Nazaré da Galileia.
E, naquela jurisdição da Galileia, Herodes Antipia, por não encontrar culpa ou crime, absolveu Jesus por duas vezes, devolvendo-o a Pilatos. Foi quando a pressão dos Sacerdotes, da cúpula do Sinédrio, tornou-se maior a Pilatos. Agora, este juiz romano receberia ameaça de denúncias ao imperador, Tibério César, sobre a sua atuação omissa em relação àquele que incitava o povo e seus seguidores a não pagarem o Tributo a César.
Ora, ora. Jesus anteriormente já fora provocado neste particular, quando lhe perguntaram: Mestre devemos pagar ou deixar de pagar o Tributo a César, ao que respondeu: “o que vê na esfinge desta moeda? Qual a sua inscrição? Dê, pois a César, o que é de César, e a Deus, o que é Deus”.
Não se pode compreender, também, a pecha imposta a Jesus, de subversor da ordem legal. Ora, ninguém mais do que Cristo apregoou aos seus seguidores, no sentido de se cumprirem as leis humanas. No entanto, inúmeros adversários religiosos, sempre desejavam lhe induzir ao erro, ou à contradição, quando, em determinada ocasião, foi provocado acerca de qual era a lei boa para ser cumprida? Ora, num momento, em que, naquela região da Judéia, fervilhavam conflitos de regramentos de ordem moral, ética, religiosa. Jesus, no entanto, ateve-se ao regramento religioso, que era sempre o foco maior das discussões, exaltando: “a síntese das leis é amar a Deus sobre todas as coisas e o próximo como a si mesmo”.
Outro grande equívoco jurídico, que não se pode ignorar, neste julgamento, foi a forma pré-concebida ou antecipada da con­denação de Jesus, igual aos que se dão, na atualidade, quando a mídia, o quarto poder, antecipadamente condena às pessoas, antes mesmo dos Tribunais, que agora apenas ratificam o ato anterior. Pois, assim se deu no caso de Jesus, onde inexistiu o formalismo do edital, que deveria ser afixado, no átrio do Sinédrio, estipulando os ilícitos e prazo para defesa. Talvez, por isso, compreenda-se o silêncio de Jesus, em face daqueles julgadores. Ou seja, para que articular a sua defesa, se já havia um julgamento antecipado?
O fato de Jesus, certa feita, num domingo, ter entrado na cidade de Jerusalém, montado sobre um jumento, e sacudindo ramos de oliveira, junto com os seus seguidores, causou-lhe inúmeros dissabores. Por isso, foi condenado pelo crime de blasfêmia. Ou seja, por blasfemar, insultar, o império romano, pondo-se na condição de Rei dos Judeus, como se isso ofendesse o reinado de Roma, ou de Tibério César sobre Jerusalém. Assim, quando chegou ao Sinédrio, a Suprema Corte de Jerusalém, questionaram­-lhe: Tu és rei? - Ao que respondeu: tu dizes isso! Ressaltou ainda, o Salvador da Humanidade, o meu Reino não é desse mundo. E, engraçado, é que os próprios Sacerdotes, que deveriam promover a defesa de Jesus, foram aqueles que saíram em sua acusação, de forma desmedida.
No Palácio da justiça de Pôncio Pilatos, representante dos interesses do Reinado de Roma, ali, também, Jesus, sempre silente, até valendo-se de uma prerrogativa sua, e mais do que isso, porque ninguém era obrigado a produzir provas contra si mesmo, segundo as leis da época, vigentes em Roma e Jerusalém. Por isso, respondia apenas ao que lhe era inquirido. Assim, Pilatos, temeroso, e com peso de consciência, exclamava: que crime esse homem cometeu? Por que vós mesmos sacerdotes e judeus não aplicais as suas próprias leis, em relação a Ele? No entanto, os sacerdotes sabiam que não poderiam matá-lo, com apedrejamento, como seria o caso, naquela região, até porque seriam julgados pelas Leis de Roma, com veemência.
Ao final, Pôncio Pilatos não suportou a pressão, e lavando as mãos, entregou Jesus à fúria da multidão, para que o crucificasse. Ou seja, fez uma sentença, que até hoje, está arquivada no museu de Madri, na Espanha, cuja feitura é de sua lavra, condenando Jesus, o Nazareno, por crime de blasfêmia e infâmia, à pena de morte, através da crucificação. Cabe refletir, uma decisão sem o formalismo necessário, desprovida de relatório, fundamentação e, no máximo, com dispositivo condenatório.

Senão, analisemos a sua parte conclusiva, in litteris:

[...] sob regimento e governador da cidade de Jerusalém, Presidente Grandisssissimo, Pôncio Pilatos; regente da Baixa Ga­lileia, Herodes Antipas, pontífice Sumo Sacerdote, Caifás, magno do Templo Alis Almael , Robas Ascasel, Franchino Cen­tauro; consules romanos da Cidade de Jerusalém, Quinto Cornélio Sublime e Xisto Rusto, no mês de março e dia XXV do ano presente - Eu Pôncio Pilatos, aqui Presidente do Império Romano, dentro do Palácio e arqui-residência, julgo condeno e sentencio a morte Jesus, chamado pela plebe- Cristo Nazareno - e galileu de nação , homem sedicioso, contra a Lei Romana -contrário ao Grande Imperador Tibério Cesar. Determino e ordeno por esta que se lhe dê morte na cruz, sendo pregado com cravos como todos os réus, porque congregando e ajustando homens, ricos e pobres, não tem cessado de promover tumultos por toda a Judéia, dizendo–se filho de Deus e Rei de Israel, ameaçando com a ruína de Jerusalém e do Sacro Templo negando tributo a César, tendo ainda o atrevimento de entrar com ramos em triunfo, com grande parte da plebe, dentro da cidade de Jerusalém. Que seja ligado e acoitado e que seja vestido de púrpura e coroado com alguns espinhos e com a própria cruz nos ombros para que sirva de exemplo a todos os malfeitores e que juntamente com ele sejam conduzidos dois ladrões homicidas saindo logo pela porta sagrada, hoje Antoniana, e que se conduza Jesus ao monte público da Justiça, hoje chamado Calvário, onde crucificado e morto ficará seu corpo na cruz, como espetáculo para todos os malfeitores que sobre se ponha em diversas línguas este título: “ Jesus Nazareno Rex Judeorum” Mando também, que nenhuma patreva, temerariamente, a impedir a Justiça por mim mandada, administrada e executada com todo o rigor, segundo os Decretos e Leis Romanas, sob as penas de rebelião contra o Imperador Romano.Testemunhas de nossa sentença: Pelas doze tribos de Israel: Rabaim Daneil, Rabaim Joaquim Banicar, Banbasu Laré Peuculari, Pelo Fariseus: Matumberto. Pelo Império Romano e pelo Presidente de Roma Lúcio Sextilo e Amácio Chilício.

    Sabe-se que a morte de Jesus foi a pior morte já vista na antiguidade, onde o sentenciado, além da condenação à pena capital, num processo cheio de eivas e vícios, sofreu dupla penalidade, o famoso bis in idem. Ou seja, ainda foi chicoteado, recebendo cuspe no rosto, e pedras atiradas no corpo. Colocaram uma coroa de espinhos sobre a sua cabeça, determinando que carregasse o madeiro infamante de 30 quilos sobre os ombros, por dois quilômetros, até o gólgota. E, ali, recebeu sobre as articulações das mãos e dos pés, cravos, e não pregos, que dilaceraram os seus músculos e tendões, perfurando e separando os ossos. Suportou as piores dores possíveis, pois que pregado na cruz, não tinha como articular o seu pulmão, para respirar, sem a força nos braços, já que o peso do seu corpo, estava todo apoiado sob os seus pés, que também foram separados por cravos, cuja cabeça do aludido metal possuía a espessura de 3 cm e o comprimento de 9 cm.
Os estudiosos das ciências biológicas relatam-nos que um organismo humano possui até 8 litros de sangue. E, Jesus permane­ceu crucificado, exaurindo sangue, durante três (03) horas, e na sequência, plasma ou água, até que um soldado de Roma enfiasse uma estaca no seu tórax, a fim de detectar se o mesmo havia morrido. Mesmo assim, Jesus, antes de partir, ao lado de criminosos, pediu perdão ao Pai criador, pelos seus algozes, sob argumento de que eles não sabiam o que faziam.
Certamente, muitos perguntariam se a trajetória de Jesus, na Terra, mereceria tanto sofrimento, para, apenas dar notícia do reino dos céus, exaltando que o seu reinado seria aquele, e bem assim para salvar a humanidade, pedindo perdão pelas suas ofensas.
Muitos adversários do Cristianismo já exaltaram Jesus como herói vencido, anti-herói, e por aí afora. Ou seja, de tudo já se ouviu dizer um pouco acerca deste gesto. Todavia, em relação a tais impropérios, e aos seus infundados autores, o que ressai é um campo árido de estudos e reflexões sérias, que, uma vez entabulados, facilmente anteporiam aos olhos, dos mais simples, o gesto genuíno do Filho de Maria e José da Galileia, em doar a sua própria vida pela libertação da humanidade. E, mais que isso, em exaltar a existência do reino dos céus, ratificando isso, em sua ressurreição, após, 07 (sete) dias.
Outrossim, muitos questionamentos exsurgem, até hoje, acerca deste julgamento, principalmente, porque, enquanto humanos, devemos nos submeter aos regramentos da justiça dos homens. Por exemplo, o julgamento atendeu aos trâmites legais do Poder Judiciário, à guisa de ilustração, obediência ao princípio do juiz natural, devido processo legal, amplitude de defesa e do contra­ditório? Ao que se sabe, através das notícias dos apóstolos, não se viu, ou se conhece o processo de acusação, os indícios e provas dos ilícitos imputados a Jesus, e nem tampouco a sua defesa.
Por derradeiro, o julgador Pilatos, num ato de covardia, de quem não pode decidir, ou não tinha condições para tal, omite-se, lavando as suas mãos e entregando o prisioneiro, Jesus, à fúria da população. Poderia, no entanto, ter aplicado o velho e sábio brocardo latino in dubio pro reo, que num desdobramento, ensina que, na dúvida, é melhor que se absolva o culpado do que con­denar o inocente.
De outro lado, merece lembrar que Jesus jamais foi condescendente a agressões injustificáveis. Inclusive fez uso, quando necessário da autodefesa como lei natural, ou seja, lei divina. À guisa de ilustração, expulsou os mercadores do templo. Noutra ocasião, questionara àqueles que o agrediram: por que bates na minha face?
Assim, não cabe questionar, agora, o Jesus Cristo capaz de salvar a todos, pelos milagres da fé, trazendo a cura e restabe­lecimento das pessoas, quando não fora capaz de defender a si mesmo, pela legítima defesa, ao quedar-se inerte no seu direito de defesa. Ora, havia orquestração, pré-determinada para julgá-lo, e a sua voz e o seu discurso, certamente, não alteraria os fatos pré-concebidos. Desta forma, limitou-se a afirmar em face do Sinédrio e de Pôncio Pilatos: tu dizes que sou rei. E o meu reino não é deste mundo. Mais que isto, o poder que tu tens para me julgar, (Pilatos), veio do meu pai. Por fim, arrematou, amanhã, estarei sentado à direita de meu pai, que está nos céus.
Muito já se ouviu do ato em que Cristo doou a sua vida, para salvar a humanidade. E, ainda crucificado e sob a tempestade, no Gólgota, pediu perdão a Deus, em nome dos seus irmãos, seus algozes, sob argumento de que eles não sabiam o que faziam. Miti­ gando, de vez, os ideais de vingança, em nome do perdão das ofensas, não só sete vezes, mas setenta vezes sete, ou quantas vezes se fizerem necessárias. E, por fim, ratificando os ideais da lição: reconciliai com o vosso adversário enquanto estais a caminho.
Não raras vezes, questionamos, como qualquer um de nós, cristãos, desejaríamos ter sido nomeado, por Roma, para fazer a defesa do Rabino da Galiléia, num Tribunal Internacional, não como estes estabelecidos, na nova ordem mundial, num mundo globalizado, cheios de conveniências de Estados dominadores. Todavia, questionaríamos: o que defender? Que crime? Que processo? Que Tribunal? São respostas que ainda teremos que encontrar. Enquanto isso vamos articulando a premissa maior do Cristianismo - a lei de amor e de caridade.
Mas, uma coisa é certa: o fato da crucificação de Jesus repercute até hoje, ecoando os ideais do Cristianismo. Pelo contrário, não intimidou, na antiguidade, os encontros dos cristãos nos cemitérios, bem assim a exposição desses ao sacrifício no coliseu romano. Ou seja, até ampliou consideravelmente a fogueira da fé cristã, até os nossos dias. A materialização de Jesus, no sétimo dia, utilizando ectoplasma humano, também, mostrou a imortalidade da alma, reformulando conceitos. A importância do perdão, mesmo num estado extremo, ao nosso maior inimigo, ressaltando a necessidade de conciliação com os adversários.
O eco da ação de Jesus Cristo repercutiu quase dois mil anos após, quando, por exemplo, Mahatma Gandhi assimilou a sua lição, vencendo uma guerra secular da Inglaterra com a Índia, sem tocar numa arma. A mesma lição de resistência, que mostrou Jesus, sem utilizar de um armamento, ao vencer o império romano, o mais poderoso e resistente da antiguidade, quando, no ano de 312 d.C, o imperador Constantino adotou o cristianismo como religião oficial de Roma.
E, por fim, porque devemos cumprimento às leis humanas, mesmo em se sabendo da sua má aplicação, em determinadas circunstâncias, seja por erros e equívocos, seja por ingerência política. Mas, principalmente, porque vivendo num Estado Demo­crático de Direito, e sob o império das Leis, devemos cumprir o pacto social, tão propalado por Rousseau, pela garantia da ordem e bom convívio social.

Erros judiciários continuarão existindo, principalmente, pelo sistema falho e falibilidade humana. Aliás, nós já vimos esse equívoco, em Terras Tupiniquins, em relação aos Irmãos Naves, no triângulo mineiro, e o tamanho do seu reflexo, até hoje, para a Justiça brasileira. Vimos que, nalgumas situações, os recursos tempestivos poderão até mudar a ordem dos julgamentos. Todavia, os reflexos daqueles que decidem mal, quando usurpam de Deus os poderes para julgar os seus semelhantes, repercutem mais que livros, gestos ou ações, como, até hoje, felizmente, ecoa a voz do Cristianismo, desde a equivocada condenação de Jesus Cristo por Pôncio Pilatos. 




quinta-feira, 7 de novembro de 2013

DEUS EM TRÊS PESSOAS: A TRINDADE (PARTE IV)








3. Só há um Deus.


Ao longo de toda a história da igreja houve tentativas de encontrar uma solução simples para doutrina da Trindade pela negação de uma ou outra dessa proposições. Caso se negue a primeira proposição [1. Deus é três pessoas.], então resta-nos simplesmente o fato de que cada uma das pessoas mencionadas nas Escrituras (Pai, Filho e Espírito Santo) é Deus, e há um só Deus. Mas se não precisamos dizer que são pessoas distintas, então há uma solução fácil: não passam de nomes diferentes para uma pessoa que age de modos diversos em situações distintas. Às vezes essa pessoa se chama Pai, às vezes se chama Filho, às vezes se chama Espírito. Não temos dificuldade para compreender isso, pois sabemos por experiência própria que a mesma pessoa pode agir em dada situação como advogado (por exemplo), noutra como pai dos seus filhos e noutra como filho diante dos seus pais; a mesma pessoa é advogado, pai e filho. Mas tal solução negaria o fato de que as três pessoas sejam indivíduos distintos, de que Deus Pai envia Deus Filho ao mundo, de que o Filho ora ao Pai e de que o Espírito santo intercede junto ao Pai por nós.

Outra solução simples surge pela negação da segunda proposição [2. Cada pessoa é plenamente Deus.], ou seja, negar que algumas das pessoas mencionadas nas Escrituras são de fato plenamente Deus. Se simplesmente sustentamos que Deus é três pessoas e que só há um Deus, então podemos ser tentados a dizer que algumas dessas "pessoas" desse Deus único não são plenamente Deus, mas apenas partes subordinadas ou criadas de Deus. Essa solução seria adorada, por exemplo, por aqueles que negam a plena divindade do Filho (e do Espírito Santo). Mas, como vimos acima, essa solução teria de negar toda uma classe de ensinamentos bíblicos.

Por fim, como já observamos acima, uma solução simples poderia vir pela negação da existência de um só Deus. Mas isso resultaria na crença em três Deus, algo claramente contrário às Escrituras.


Embora o terceiro erro não seja comum, como veremos a seguir, cada um dos dois primeiros erros já apareceu num momento ou noutro da história da igreja, e ainda persiste hoje dentro de alguns grupos.




Postado pelo Pastor Augustus Nicodemus Lopes


domingo, 3 de novembro de 2013

DEUS EM TRÊS PESSOAS: A TRINDADE (PARTE III)










1. Deus é três pessoas

O fato de ser Deus três pessoas significa que o Pai não é o Filho; são pessoas distintas. Significa também que o Pai não é o Espírito Santo, mas são pessoas distintas. E significa que o Filho não é o Espírito Santo. Essas distinções se mostram em várias das passagens citadas na seção anterior, bem como em muitas outras passagens do Novo Testamento.
Jo 1.1-2 nos diz: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus.". O fato de o "Verbo" (que se revela Cristo nos v. 9-18) estar "com" Deus prova que ele é distinto de Deus Pai. Em João17.24, Jesus fala a Deus Pai da "minha glória que me conferiste, porque me amaste antes da fundação do mundo", revelando assim distinção de pessoas, compartilhamento de glória e uma relação de amor entre o Pai e o Filho antes que o mundo fosse criado.
Lemos que Jesus continua agindo como nosso Sumo Sacerdote e Advogado perante Deus Pai: "Meus filhinhos, estas coisas vos escrevo, para que não pequeis; e, se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o justo." (1 Jo 2.1). Cristo é aquele que "pode também salvar perfeitamente os que por ele se chegam a Deus, vivendo sempre para interceder por eles."(Hb 7.25). Porém, a fim de interceder por nós perante Deus Pai, é necessário que Cristo seja uma pessoa distinta do Pai.
Além disso, o Pai não é o Espírito, tampouco o Filho é o Espírito Santo. Distinguem-se em vários versículos. Diz Jesus: "Mas aquele Consolador, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas, e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito" (Jo 14.26). O Espírito Santo também ora ou "intercede" por nós (Rm 8.27), indicando uma distinção entre o Espírito Santo e Deus Pai, a quem se faz a intercessão.
Finalmente, o fato de o Filho não ser o espírito Santo também está indicado em várias passagens trinitárias mencionadas anteriormente, como a Grande Comissão (Mt 28.19), e em passagens que indicam que Cristo voltou ao céu e então enviou o Espírito Santo à igreja. Disse Jesus: "Todavia digo-vos a verdade, que vos convém que eu vá; porque, se eu não for, o Consolador não virá a vós; mas, quando eu for, vo-lo enviarei." (Jo 16.7).
Alguns já questionaram se o espírito Santo é de fato uma pessoa distinta, e não simplesmente o "poder" ou a "força" de Deus em ação no mundo. Mas as evidências do Novo Testamento são bem claras e fortes. Primeiro há os diversos versículos mencionados acima, em que o Espírito Santo é revelado em coordenada relação com o Pai e o Filho ( Mt 28.19; 2 Co 12.4-6; 2 Co 13.13ou14; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2): como o Pai e o Filho são ambos pessoas, a expressão coordenada indica fortemente que o Espírito Santo também é uma pessoa. Depois há trechos em que o pronome masculino ele(gr. ekeinos) se refere ao Espírito Santo (Jp 14.26; 15.26; 16.13-14), o que não seria de esperar em face das regras da gramática grega, pois a palavra "espírito"(gr. pneuma) é neutra, não masculina, e a ela normalmente se alude com o pronome neutro ekeino. Além do mais, o nome consolador ou confortador (gr. parakeltos) é um termo comumente usado para falar de uma pessoa que ajuda ou dá consolo ou conselho a outra pessoa ou pessoas, mas se refere ao Espírito Santo no evangelho de João (Jo 14.16, 26; 15.23; 16.7).
Outras atividades pessoais são atribuídas ao Espírito Santo, como ensinar (Jo 14.26),  dar testemunho (Jo 15.26; Rm 8.16), interceder ou orar em nome de outros (Rm 8.26-27), sondar as profundezas de Deus (1 Co 2.10), conhecer os pensamentos de Deus (2 Co 2.11),  decidir conceder dons para alguns, e outros para outros (1 Co 12.11), proibir ou não permitir determinadas atividades (At 16.6-7), falar (At 8.29; 13.2; e muitas vezes no Antigo como no Novo Testamento), avaliar e aprovar um proceder sábio (At15.28) e se entristecer diante do pecado dos cristãos (Ef 4.30).
Por fim, se o Espírito Santo é interpretado meramente como o poder de Deus, e não como pessoas distinta, então várias passagens simplesmente não fariam sentido, pois nelas se mencionam tanto o Espírito Santo quanto o seu poder, ou o poder de Deus. Por exemplo, Lucas 4.14 ("Então, Jesus, no poder, regressou para Galiléia") significaria então "Jesus, no poder do poder, regressou para a Galiléia". E atos 10.38 ("Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com poder") significaria "Deus ungiu a Jesus com o poder de Deus e com poder" (ver também Rm 15.13; 1 Co 2.4).
Embora tantas passagens distingam claramente o Espírito Santo dos outros membros da Trindade, 2 Coríntios 3.17 se revela um versículo desconcertante: "Ora, o Senhor é Espírito; e onde está o Espírito do Senhor, aí há liberdade.". Os interpretes muitas vezes supõem que "Senhor" aqui só pode ser Cristo, pois Paulo usa freqüentemente "Senhor" para referir a Cristo. Mas provavelmente não é esse o caso aqui, pois a gramática e o contexto nos fornecem bons argumentos para dizer que esse versículo tem melhor tradução com o Espírito Santo o sujeito: "Ora, o Espírito é o Senhor ...". Nesse caso,  Paulo estaria dizendo que o Espírito Santo é também "Jave" (ou "Jeová), o Senhor do Antigo Testamento (repare o claro pano de fundo do Antigo Testamento que se revela nesse contexto, a partir do v. 7). Teologicamente, isso seria aceitável, pois sem dúvida se pode dizer que assim como Deus Pai é "Senhor" e Deus Filho é "Senhor" (no pleno sentido de "Senhor" no Antigo Testamento como nome de Deus), também o Espírito Santo é chamado "Senhor" no Antigo Testamento - e é o Espírito Santo que nos manifesta especialmente a presença do Senhor na era da nova aliança.


2. Cada pessoa é plenamente Deus

Além do fato de serem as três pessoas distintas as Escrituras dão farto testemunho de cada pessoa é plenamente Deus.
Primeiro Deus Pai é claramente Deus.  Isso se evidencia desde o primeiro versículo da Bíblia no qual Deus cria o céu e a terra. É evidente em todo o Antigo e Novo Testamento, no quais Deus Pai é retratado nitidamente como Senhor soberano de tudo e onde Jesus orar ao seu Pai celeste.
Também, o Filho é plenamente Deus. Embora esse ponto seja desenvolvido com mais por menores no capítulo 26 [da Teologia Sistemática deste autor, donde tiramos este estudo] ("A Pessoa de Cristo"), podemos aqui mencionar de passagem vários trechos explícitos. João 1.1-4 afirma claramente a plena divindade de Cristo:
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.
Aqui, Cristo é o "Verbo", e João diz que ele estava "com Deus" e também que ele "era Deus". O texto grego repete as palavras iniciais de Gênesis 1.1 ("No princípio...") e  nos lembra de que João está falando de algo que já era verdade antes que o mundo fosse criado. Deus Filho sempre foi plenamente Deus.
A tradução "o Verbo era Deus" foi contestada pelas testemunhas-de-jeová, que vertem "o Verbo era um deus", implicando que o Verbo era simplesmente um ser celestial, mas  não plenamente divino. Eles justificam essa tradução salientando que o artigo definido (gr. ho, "o") não aparece antes da palavra grega theos ("Deus). Dizendo que theos deve ser traduzido como "um deus". Porém, tal interpretação nunca foi acatada por  nenhum estudioso grego de lugar algum, pois é sabido que a frase segue uma regra normal da gramática grega, e ausência do artigo definido indica meramente que "Deus" é o predicado, e não o sujeito da frase. (Uma publicação recente das testemunhas-de-jeová reconhece hoje essa relevante gramatical, mas assim mesmo persiste na sua posição a respeito de João 1.1).
A incoerência da posição das testemunhas-de-jeová pode ser vista na tradução que dão ao restante do capítulo. Por diversas outras razões gramaticais, a palavra theos também dispensa o artigo definido em outros pontos do capítulo, como no versículo 6 (Houve um homem enviado por Deus"), no versículo 12 ("poder de serem feitos filhos de Deus"), no versículo 13 ("mas de Deus") e no versículo 18 ("Ninguém jamais viu a Deus"). Se as testemunhas-de-jeová fossem coerentes no seu argumento sobre a ausências do artigo definido, teriam de traduzir todos esses versículos com a expressão "um deus",mas usaram "Deus" em todos eles.
João 20.28, no seu contexto, também é uma sólida prova em favor da divindade de Cristo. Tomé duvidava do relatos dos outros discípulos, de que haviam visto Jesus ressuscitado, e disse que não acreditaria se não visse as marcas dos cravos nas mãos de Jesus e não lhe tocasse com a mão na ferida do lado (jo 20.25). Então Jesus apareceu novamente aos discípulos, estando agora Tomé com eles. Disse a Tomé: "Põe aqui o dedo e vê as minhas mãos; chega também a mão e põe no me lado; não seja incrédulo, mas crente"" (Jo 20.28). Aqui Tomé chama Jesus de "Deus meu". A narrativa mostra que tanto João no modo com escreveu o seu evangelho quanto o próprio Jesus aprovam o que Tomé disse e incentivam todos os que ouvirem falar de Tomé a crer nas mesmas coisas em que Tomé creu. Jesus imediatamente disse a Tomé: "Porque me viste, creste? Bem-aventurados os que não viram e creram" (Jo 20.29). Quanto a João, esse é o momento dramático mais forte do evangelho, pois ele logo a seguir diz ao leitor - já no versículo seguinte - que esta é a razão pela qual ele o escreveu:
"Jesus, pois, operou também em presença de seus discípulos muitos outros sinais, que não estão escritos neste livro. Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. "(Jo 20.30-31)
Jesus fala daqueles que, mesmo sem o ver crerão, e João logo diz ao leitor que ele registrou os acontecimentos no evangelho para que todos também creiam assim, imitando Tomé na sua confissão de fé. Em outras palavras, todo o evangelho foi escrito para convencer as pessoas a imitar Tomé, que sinceramente chamou Jesus de "Senhor meu e Deus meu". Como esse é o motivo exposto por João como propósito do seu evangelho, a afirmação se reveste de autoridade.
Outras passagens afirmam a plena divindade de Jesus, como Hebreus 1, onde diz que Cristo é a "expressão exata" (gr. charakter, "reprodução exata") da natureza ou ser (gr. hypostasis) de Deus - significando que Deus Filho reproduzia o ser ou a natureza de Deus Pai em todos os aspectos: todos os atributos ou poderes que Deus Pai tem, Deus Filho também os tem. O autor ainda se refere ao Filho como "Deus" no versículo 8 ("Mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre")  e atribui a criação dos céus a Cristo ao dizer dele: "No princípio, Senhor, lançaste os fundamentos da terra, e os céus são obras das tuas mãos" (Hb 1.10; citando Sl 102.25). Tito 2.13 refere-se ao "nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus" e 2 Pedro 1.1 fala da "justiça de nosso Deus e Salvador Jesus Cristo". Romanos 9.5, falando do povo judeu, diz: "Deles são os patriarcas, e a partir deles se traça a linhagem humana de Cristo, que é Deus acima de tudo, bendito para sempre! Amém" (NVI).

No Antigo Testamento, Isaías 9.6 profetiza:
Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu,
e o principado está sobre os seus ombros,
e se chamará o seu nome: Maravilhoso, Conselheiro, Deus Forte ...

Aplicando a Cristo, essa profecia refere-se a ele como "Deus Forte". Observe aplicação semelhante dos títulos "Senhor" e "Deus" nas profecias da vinda do Messias em Isaías 40.3: "Preparai o caminho do Senhor; endireitai no ermo vereda a nosso Deus", citada por João Batista na preparação para vinda de Cristo em Mateus 3.3.
Muitas outras passagens serão discutidas no capítulo 26, [da Teologia Sistemática deste autor], abaixo, mas essas já devem ser suficientes para demonstrar que o Novo Testamento claramente se refere a Cristo como Deus pleno. Como diz Paulo em Colossenses 2.9, "Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade."
Além disso, O Espírito Santo é também plenamente Deus. Uma vez que entendemos que Deus Pai e Deus Filho são plenamente Deus, então as expressões trinitárias em versículos com Mateus 28.19 ("batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo") se revestem de relevância para a doutrina do Espírito Santo, pois mostram que o Espírito Santo está classificado no mesmo nível do Pai e do Filho. Isso se verifica quando percebemos quão impensável seria que Jesus dissesse algo como "batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do arcanjo Miguel", dando a um ser criado uma posição totalmente descabida, mesmo para um arcanjo. Os crentes de todas as épocas sempre foram batizados em nome (assumindo, portanto, o caráter) do próprio Deus. (Note também as outras passagens trinitárias mencionadas acima: 1 Co 12.4-6; 2 Co 13.14; Ef 4.4-6; 1 Pe 1.2; Jd 20-21.)
Em atos 5.3-4, Pedro pergunta a Ananias: "Por que encheu Satanás teu coração, para que mentisses ao Espírito Santo [...]? Não mentiste aos homens, mas a Deus". Segundo as palavras de Pedro, mentir ao Espírito Santo é mentir a Deus. Paulo diz em 1 Coríntios 3.16: "Não sabeis que sois santuário de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?" O templo de Deus é o local onde o próprio Deus habita, o que Paulo explica pelo fato de que o "Espírito de Deus" ali habita, aparentemente igualando o Espírito de Deus ao próprio Deus.
Davi pergunta em Salmos 139.7-8: "Para onde me irei do teu Espírito, ou para onde fugirei da tua presença? Se subir ao céu, tu aí estás; se fizer no Seol a minha cama, eis que tu ali estás também." Essa passagem atribui as características divina da onipresença ao Espírito Santo, algo que não se aplica a nenhuma das criaturas de Deus. Parece que Davi faz equivaler o Espírito de Deus à presença de Deus. Ausentar-se do Espírito de Deus é ausentar-se da sua presença, mas se não há lugar para onde Davi pode fugir do Espírito de Deus, então ele sabe que aonde quer que vá terá de dizer: "Tu estás aí".
Paulo atribui a característica divina da onisciência ao Espírito Santo em 1 Coríntios 2.10-11: "Porque Deus no-las revelou pelo seu Espírito; pois o Espírito esquadrinha todas as coisas, mesmos as profundezas de Deus. Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? assim também as coisas de Deus [ou os pensamentos de Deus], ninguém as conhece, senão o Espírito de Deus.".
Além disso, o ato de dar novo nascimento a todo aquele que nasce de novo é obra do Espírito Santo. Disse Jesus:"... quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne é carne; e o que é nascido do Espírito é espírito. Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo" (Jo 3.5-7). Mas o ato de dar nova vida espiritual às pessoas quando se tornam cristãs é algo que só Deus pode fazer (cf. 1 Jo 3.9, "nascido de Deus"). Essa passagem, portanto, dá nova indicação de que o Espírito Santo é plenamente Deus.
Até aqui temos duas conclusões, ambas fartamente ensinadas em toda a Bíblia:

1. Deus é três pessoas.

2. Cada pessoa é plenamente Deus.


Se a Bíblia ensinasse somente esses dois fatos, não haveria nenhuma dificuldade lógica em emparelhá-los, pois a solução óbvia seria que existem três Deuses. O Pai é plenamente Deus, o Filho é plenamente Deus e o Espírito santo é também plenamente Deus.Teríamos um sistema com três seres igualmente divinos. Tal crença se chamaria politeísmo - ou, mais especificamente, "triteísmo", ou crença em três Deuses. Mas isso passa bem longe do que ensina a Bíblia.


Postado pelo Pastor Augustus Nicodemus Lopes